O Que Fazer Nordeste de Amaralina

Querem apagar 22 anos de história na tora

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Dizer que o Nordeste Amaralina não tem condições de realizar seu Carnaval é mais do que desinformação. É falácia. É discurso vazio. É mais uma tentativa de deslegitimar uma comunidade inteira que construiu, com as próprias mãos, um dos maiores eventos populares do território.

O Carnaval do Nordeste Amaralina nasceu em 2004. Não nasceu de decreto, nem de gabinete, nem de edital público. Nasceu da vontade dos moradores. Durante 12 anos, antes de qualquer oficialização, a comunidade organizou o evento sozinha. Sem prefeitura. Sem governo. Sem estrutura estatal. E mesmo assim, sempre aconteceu.

A oficialização só veio entre 2015 e 2016, mais de uma década depois da criação. E ela não criou o Carnaval. Apenas reconheceu algo que já existia, crescia e se consolidava ano após ano. Quando o poder público chegou, o que houve foi investimento em trios, banheiros químicos, iluminação e algum apoio às associações envolvidas. Mas a base, a organização e o cuidado sempre foram da comunidade.

Quem organizou o Carnaval nesses anos todos foram os moradores. Quem garantiu que o evento acontecesse de forma ordeira foram os moradores. Quem construiu regras, horários, trajetos e convivência foram os moradores. E é preciso dizer com todas as letras: durante esse longo período, o Carnaval do Nordeste Amaralina não apresentou histórico de problemas graves relacionados à segurança pública.

Mesmo assim, agora surgem os juízes da internet. Pessoas que nunca pisaram no território, que não conhecem a história do bairro, mas que se sentem autorizadas a pressionar o Estado para acabar com o evento. Fazem isso embaladas por programas policiais sensacionalistas, que lucram diariamente com o medo, a generalização e a criminalização das favelas.

Outro argumento recorrente é ainda mais violento. A tentativa de associar o Carnaval da comunidade ao financiamento do tráfico e das drogas. Essa narrativa não é apenas falsa. Ela é preconceituosa, racista e revela o ódio direcionado às populações periféricas. Generalizar mais de 100 mil pessoas, reduzindo um território inteiro ao crime, é desumanização pura.

O Nordeste Amaralina não é um bloco criminoso. É um bairro. É uma comunidade viva. Com trabalhadores, comerciantes, ambulantes, artistas, crianças, idosos, lideranças comunitárias, associações e projetos sociais. O Carnaval é expressão dessa vida coletiva. É o maior evento cultural do território porque nasce da organização popular, da identidade local e do sentimento de pertencimento.

Apagar 22 anos de história não é medida de segurança pública. É violência institucional. É negar a capacidade de organização de uma comunidade que já provou, na prática, que sabe cuidar do seu próprio evento. É tentar resolver problemas complexos com soluções simplistas, sempre penalizando os mesmos corpos e os mesmos territórios.

O Carnaval do Nordeste Amaralina não é concessão do Estado. É conquista popular. E toda vez que tentam apagá-lo, não estão combatendo o crime. Estão atacando a cultura, a memória e o direito de existir de uma comunidade inteira.