O Que Fazer Nordeste de Amaralina

Por que o Nordeste de Amaralina e as favelas de Salvador seguem no mesmo lugar?

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Conseguimos eleger um deputado federal. Isso é histórico. Mas e a vida na comunidade, mudou? Não. O cotidiano segue marcado pela agonia, pelo sensacionalismo, pelas vidas interrompidas cedo demais. Tudo isso é velho conhecido de quem vive aqui. E a verdade é uma só: nada vai mudar se a gente não mudar a forma como se organiza, pensa e age politicamente.

A resposta está diante dos nossos olhos. O problema é que muita gente ainda não enxergou. Continuamos presos à política de enxugar gelo. Mudam os rostos, mudam os discursos, mas a estrutura é a mesma. E enquanto a base não mudar, tudo seguirá do mesmo jeito. É preciso mexer na raiz. E a raiz da mudança é educação, cultura, formação política e, acima de tudo, consciência de classe.

Não adianta protesto vazio, nem vídeo viral em rede social, nem mesmo uma matéria como essa que você está lendo agora, se a gente continuar vendendo nosso voto por 50 reais. Isso não é pouca coisa. É exatamente esse o plano: manter a gente sem educação, sem cultura, sem estrutura, sem horizonte. Eles sabem muito bem o que estão fazendo. E estão fazendo de forma proposital.

Você já parou pra pensar por que o Nordeste de Amaralina sofre tanto? Por que sofre até mais do que outras comunidades periféricas de Salvador? Vão dizer que é vitimismo. Vão dizer que a culpa é nossa. Sempre jogam pra gente a responsabilidade pelo fracasso deles. Mas a verdade é que aqui tem potência, tem talento, tem visão. Falta é investimento, é compromisso público, é apoio real.

O exemplo do Viva Nordeste é símbolo disso. Um projeto que mudou vidas, que tinha impacto, que era ponte pra outro futuro. Acabou por falta de apoio. Hoje, o que resta de grande aqui é o Quabales e o CAENA, e esse último ainda sofre com o estigma da localização, dentro de uma área conflagrada. Até entre os próprios moradores há medo e preconceito.

Quantos artistas, quantos agentes culturais, quantos projetos têm potencial pra transformar a realidade e não conseguem apoio, não têm espaço, não têm voz? Não temos um espaço cultural sequer para fazer uma mostra de cinema, um show, uma formação. A política pública por aqui se resume a asfalto, praça, festa e carnaval. Mas a gente é muito mais que isso. A gente quer é capacitação, oportunidade, dignidade. Queremos garantir o pão com nosso talento, com nosso trabalho.

A juventude precisa de ocupação, de visão, de referência. Precisa de arte, de esporte, de leitura, de horizonte. É na base que tudo muda. É na infância, é na adolescência. Mas pra isso, é preciso que a comunidade se organize, se mobilize, saiba cobrar e, principalmente, saiba votar. Enquanto isso não acontecer, vamos continuar vendo o Nordeste de Amaralina sendo citado em programa policial, enquanto nossos verdadeiros talentos seguem invisíveis.

A mudança é possível. Mas ela começa por nós.