O Que Fazer Nordeste de Amaralina

Os Malês, a fuga do cativeiro e o nascimento das periferias de Salvador

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Não existe registro histórico que ligue, de forma direta e documental, a Revolta dos Malês ao território que hoje conhecemos como Nordeste de Amaralina. Não há nomes identificados, lideranças mapeadas ou episódios que indiquem a presença organizada dos revoltosos ou de seus descendentes na comunidade. Do ponto de vista histórico, essa ligação não pode ser afirmada.

Mas a história não se move apenas pelos registros oficiais. Territórios como os nossos, muitas vezes, são tratados como invasão ou como áreas sem história, mesmo sendo quilombos urbanos. Os registros de um território periférico também se deslocam como gente em fuga, como memória forçada a mudar de lugar.

A Revolta dos Malês, em 1835, ocorreu em uma Salvador ainda concentrada no Centro Histórico, na Cidade Baixa e nos arredores do porto. O Nordeste de Amaralina, enquanto território urbano, ainda não existia. A região era composta por matas fechadas, fazendas, morros e brejos, caminhos pouco ocupados, fora do circuito político e econômico central da cidade. O impacto mais profundo da revolta não se deu apenas no dia em que ela foi sufocada, mas no que veio depois.

A repressão violenta desencadeou um processo contínuo de vigilância, perseguição e controle sobre africanos muçulmanos, negros libertos e seus descendentes. Práticas religiosas foram criminalizadas, formas de organização coletiva passaram a ser tratadas como ameaça, e a presença negra nos espaços centrais da cidade tornou-se indesejada. A resposta do poder foi clara: dispersar, fragmentar, empurrar para longe. Esse movimento funcionou como uma onda forçada. Quando o centro se fecha, a vida transborda para as margens.

Ao longo do século XIX e início do século XX, muitos negros passaram a recusar o retorno ao trabalho nas fazendas, onde a exploração continuava mesmo após a liberdade formal. A busca por autonomia no trabalho, por terra própria, por controle do próprio tempo e da própria fé impulsionou a ocupação de áreas consideradas improdutivas ou perigosas pelo poder colonial e republicano. Como grande parte da mão de obra era braçal na economia da cidade, muitos optaram por viver de seu ofício, como a pesca, por exemplo.

Matas, encostas, antigas terras de fazenda e zonas afastadas do núcleo urbano passaram a ser refúgio. Assim se consolidaram quilombos, comunidades negras autônomas e, mais tarde, ocupações populares que formariam a base de bairros periféricos de Salvador. Os descendentes dos africanos perseguidos após a revolta carregaram essa experiência no cotidiano. Mesmo sem serem chamados de malês, herdaram o aprendizado de que sobreviver exigia distância do centro do poder. A cidade cresceu, mas cresceu empurrando.

É nesse processo histórico que se forma a base social que, décadas depois, ocuparia áreas como Santa Cruz, Vale das Pedrinhas, Chapada do Rio Vermelho e o Nordeste de Amaralina. Territórios que nascem não de um planejamento urbano, mas de uma estratégia coletiva de sobrevivência. O Nordeste de Amaralina surge no século XX, mas surge dentro de uma Salvador já marcada por dinâmicas estruturais profundas: a expulsão do povo negro das áreas centrais, a criminalização da cultura africana, o controle policial permanente sobre territórios negros e formas de resistência construídas longe dos palcos oficiais da história.

Por isso, é necessário rigor histórico e honestidade intelectual. Não é correto afirmar que os Malês estiveram no Nordeste de Amaralina. Mas é impossível negar que o Nordeste de Amaralina nasce do mesmo processo histórico que tentou destruir os Malês. A revolta foi derrotada no campo militar. Mas seu efeito se espalhou pela cidade.

A resistência negra deixou o centro, ocupou as margens, criou quilombos, ergueu comunidades com aquisição de lotes, mesmo clandestinos, reinventou formas de trabalho e construiu territórios onde fosse possível viver sem pedir licença.

A repressão tentou apagar uma ideia. O que fez, sem perceber, foi espalhá-la.

Este texto é baseado em pesquisas históricas, estudos sobre a Revolta dos Malês, processos de formação urbana de Salvador e análises sobre memória social e pós-abolição. Não há registros documentais que comprovem a presença direta dos Malês no território do Nordeste de Amaralina.