Antes do asfalto, dos muros e das casas coladas umas às outras, havia água correndo. Nas áreas onde hoje estão partes de Santa Cruz, Vale das Pedrinhas, Chapada do Rio Vermelho e do Nordeste de Amaralina, o território era organizado pelo curso do Rio Camarajipe e por seus afluentes que desciam das regiões mais altas em direção ao mar.
O rio não seguia linhas retas nem obedecia a limites urbanos. Ele se espalhava, alagava, formava brejos e fertilizava o solo das antigas fazendas que deram origem à comunidade. Essa era a lógica natural do lugar.
Quando as primeiras famílias ocuparam a região, a água fazia parte da vida cotidiana. Existiam as ganhadeiras do Nordeste e as lavadeiras de roupas de ganho, uma profissão que sustentou e moldou muitas famílias do território. Até hoje, ainda há fontes de água em casas e terreiros, sinais vivos dessa relação antiga com o rio.
A partir das décadas de 1940 e 1950, com a expansão dos loteamentos e a expulsão gradual da população empobrecida para áreas mais distantes e desvalorizadas, o rio passou a ser tratado como obstáculo ao crescimento urbano. Em vez de adaptar a cidade ao território, a escolha foi esconder a água.
Vieram os aterros, o soterramento do rio e as canalizações mal planejadas. Ruas foram abertas sobre antigos caminhos naturais de drenagem. Casas foram construídas em áreas que sempre funcionaram como vazão. O rio não desapareceu. Ele apenas foi empurrado para debaixo da terra.
A urbanização do Nordeste de Amaralina ocorreu sem um sistema adequado de drenagem e sem considerar a bacia hidrográfica. O crescimento foi rápido, denso e desordenado. Quando chove forte, a água tenta refazer seu caminho original, mas encontra muros, lajes, ruas estreitas e esgoto.
É por isso que alaga.
Não é azar nem castigo. É a memória da água cobrando passagem. Os pontos de alagamento coincidem com áreas onde o rio e seus afluentes foram cobertos. A água não some. Ela retorna.
Pesquisas e registros históricos mostram que esse problema é antigo e estrutural. Ele nasce da forma como o território popular foi construído, sem infraestrutura, sem escuta e sem respeito à história do chão. O espaço foi loteado e a vida teve que se virar.
Entender o rio é entender a comunidade.
Cuidar da drenagem é cuidar da vida.
Enquanto o planejamento urbano continuar ignorando a história do território, a água vai continuar lembrando.










