48 anos depois de virar bairro oficial, a sociedade soteropolitana ainda trata o Nordeste de Amaralina como se ele fosse invisível.
Se você fizer uma busca rápida na internet, vai entender rápido o problema. A imagem que aparece do Nordeste de Amaralina é quase sempre a mesma: só violência. Quem mora fora do bairro conhece mais os nossos problemas do que as nossas soluções. Sabe quem fundou a FAC, mas não faz a menor ideia de quem lutou para esse território existir.
Reconhece o crime. Mas ignora o Carnaval que é referência mundial e serve de estudo para universidades de vários países. Desconhece a Feira Dominical que nossos ancestrais criaram. Apaga a história, a cultura e a criatividade que o bairro carrega há décadas.
Por trás dessa distorção existe um projeto antigo. Um sistema que, durante muitos anos, ensinou o próprio morador a ter vergonha do lugar onde vive. Que fez a gente acreditar que aqui só tem problema e que o futuro estava necessariamente fora do bairro. Um sistema que roubou o nosso pertencimento.
O resultado disso é um contraste duro. Enquanto Salvador vive de turismo e cultura, comunidades periféricas como o Nordeste de Amaralina ficam de fora dessa conta. Pior ainda: fomos tão machucados por esse apagamento que, muitas vezes, precisamos que o turista e as grandes marcas validem a nossa cultura antes mesmo do próprio morador bater no peito e reconhecer o seu valor.
A virada desse jogo não vai vir da televisão. Não vai vir de quem só quer mostrar o lado ruim da história. A mudança começa dentro da gente. Depende do que a gente acredita, do que a gente consome, do que a gente compartilha e, principalmente, do orgulho que a gente decide ter do nosso território.
Está na hora de a gente mesmo descobrir o Nordeste de Amaralina. De valorizar a nossa história, a nossa festa, a nossa feira, a nossa resistência. Porque enquanto a gente não se reconhecer e não se orgulhar do que somos, ninguém de fora vai fazer isso por nós.
48 anos depois de ser oficializado como bairro, o Nordeste de Amaralina continua sendo muito maior do que a imagem que tentam colar nele. E essa potência só vai brilhar de verdade para o mundo quando a gente, primeiro, decidir enxergá-la.










