O Que Fazer Nordeste de Amaralina

O Nordeste de Amaralina na prancheta dos outros: até quando a nossa história será usada como moeda de troca acadêmica e política?

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Iniciativas nascem no bairro sem o conhecimento dos moradores, enquanto grupos políticos e pesquisas universitárias utilizam o nome do nosso território para garantir recursos e diplomas, sem deixar nenhum retorno concreto para a comunidade.

O Nordeste de Amaralina é uma potência viva e ninguém duvida disso. Somos cerca de 100 mil habitantes, um polo de economia criativa, cultura e resistência histórica. Essa riqueza faz do nosso bairro uma das maiores fontes de pesquisa para estudantes e professores de diversas universidades de Salvador. O fluxo é constante: pesquisadores chegam, batem na nossa porta, nos procuram como fonte de informação para seus módulos de estudo, conquistam verbas, publicam seus trabalhos e garantem suas formações acadêmicas. Mas a pergunta que a nossa rua precisa fazer em tom de cobrança é direta: qual é o retorno real e construtivo que esse conhecimento deixa para o desenvolvimento da nossa comunidade?

Infelizmente, a realidade mostra um processo que se assemelha muito mais à exploração do que à parceria. O padrão se repete há décadas. Projetos acadêmicos e debates sobre o nosso próprio chão.Ccomo o caso recente de discussões sobre a regulamentação das Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) ou a própria requalificação da feirinha do Nordeste, acontecem de forma fechada, restritos a um círculo muito pequeno. O morador comum, o trabalhador que enfrenta os problemas diários da ladeira, os veículos de mídia comunitária e as verdadeiras lideranças que dão o sangue pelo bairro no dia a dia simplesmente não são inseridos no processo e nem ficam sabendo o que de fato está sendo feito com o nome do território.

Para que essas narrativas fiquem de pé e pareçam legítimas para quem olha de fora, esses grupos universitários costumam se aliar a figuras políticas partidárias e a pessoas que se autointitulam “lideranças comunitárias”, mas que já não desenvolvem absolutamente nada de concreto e relevante na nossa área. É a velha politicagem que vive de falácias, de recursos públicos e de palanque. Juntos, criam reuniões maquiadas com discursos bonitos sobre direitos urbanos e estratégias de mobilização, mas que na prática servem apenas para cumprir tabela acadêmica e validar projetos financiados. Enquanto eles assinam atas e debatem teses, as nossas demandas por saneamento, saúde e segurança continuam sem solução.

O Nordeste de Amaralina não pode mais aceitar ser tratado como um laboratório ou um objeto de estudo que só serve para gerar status para os outros. A nossa história, as nossas lutas e as nossas conquistas não pertencem a partidos políticos e nem a estudantes que somem assim que pegam o diploma. É preciso que a comunidade acorde para essa exploração invisível e passe a exigir transparência. Se universidades e organizações sociais querem debater o nosso território, que façam isso de portas abertas para o povo de verdade, respeitando quem constrói essa favela. Chega de sermos degrau para o crescimento alheio; o conhecimento sobre o Nordeste precisa, primeiro e obrigatoriamente, servir ao próprio morador do Nordeste.