A citação do nosso território no debate para o Governo do Estado expõe a desconexão da classe política com a realidade periférica: o jovem da favela quer diploma sim, e a comunidade exige segurança pública qualificada, não o abandono do Estado.
Em um debate eleitoral entre os candidatos ao Governo do Estado da Bahia, o Nordeste de Amaralina voltou a ser citado no palanque da televisão. Ao responder sobre propostas para a educação, o candidato Ronaldo Mansur (PSOL), em tréplica ao candidato Jerônimo (PT), disparou a seguinte afirmação: “Aos alunos da escola pública não interessa ter diploma, é preciso a gente encarar a educação universalizada para a gente pobre da periferia, o Nordeste de Amaralina ao qual tu conheces muito bem, a gente não precisa ter a polícia ostensiva como nós temos. É preciso estar no Nordeste de Amaralina com arte, cultura, educação e lazer.”
Na nossa análise, de quem atua há oito anos no chão dessa comunidade como produtores de cultura, pesquisadores do território e jornalistas independentes, essa declaração soa profundamente pejorativa, oportunista e contraditória. É o típico discurso de quem olha a periferia através de lentes teóricas e reduz as dores e ambições do nosso povo a slogans de campanha.
Primeiro, é inadmissível e desrespeitoso afirmar que ao jovem da escola pública e da favela “não interessa ter diploma”. Essa fala carrega um preconceito velado e elitista. O sonho de quase todo jovem do Nordeste de Amaralina é, sim, ter acesso a um ensino de excelência, conquistar o seu diploma, alcançar uma profissão valorizada, garantir estabilidade financeira e ver a mãe ou o pai colocarem o chapéu de formado na sua cabeça no dia da formatura. O diploma representa a quebra do ciclo de pobreza e a realização de gerações inteiras de famílias pretas e periféricas. Ninguém no nosso bairro quer ser condenado ao trabalho precário desde a infância ou ter que se desdobrar entre o subemprego e o estudo por falta de opção. Dizer que o diploma não importa para o filho do trabalhador é limitar o teto do nosso futuro.
Em segundo lugar, sobre a afirmação de que a comunidade “não precisa de polícia ostensiva”, cabe um debate muito mais sério e responsável do que o simplismo de palanque. É um fato incontestável que o atual modelo operante da segurança pública no Estado é truculento, defasado e violento contra os corpos negros da periferia. Defendemos, sem hesitar, que o esporte, a cultura, a educação e o lazer são os verdadeiros pilares para prevenir a violência e oferecer horizontes reais à juventude. Contudo, pregar a simples ausência do policiamento ostensivo no território significa assinar o atestado de falência e omissão do Estado, entregando a população de trabalhadores à própria sorte diante do poder paralelo e do crime organizado.
O que o Nordeste de Amaralina e as demais periferias precisam não é da retirada da polícia, mas sim de uma reformulação profunda na segurança pública: capacitação técnica, inteligência, atuação pautada nos direitos humanos e integração com forças federais, já que o enfrentamento ao crime organizado é um desafio de âmbito nacional.
Usar o nome do Nordeste de Amaralina para fazer demagogia e vender soluções fáceis em noite de debate não resolve a nossa rotina. O nosso bairro exige respeito: queremos arte, cultura e lazer, mas também exigimos o direito de nossos filhos conquistarem seus diplomas e o direito básico de caminhar nas nossas ruas com segurança e dignidade real.










