O Que Fazer Nordeste de Amaralina

Carnaval é direito, cultura e resistência no Nordeste Amaralina

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Nos últimos dias, uma morte de um policial desencadeou uma sequência de operações policiais extensivas no Nordeste Amaralina. A rotina de mais de 100 mil moradores foi atravessada pelo medo, pela interrupção do direito de ir e vir, pelo fechamento do comércio local e pela recusa de aplicativos de transporte em circular pela região. A comunidade inteira passou a pagar a conta.

Nesse cenário, cresce um discurso perigoso que tenta usar a violência como justificativa para enfraquecer ou até acabar com o Carnaval do Nordeste Amaralina. Um discurso amplificado por veículos de comunicação focados na lógica da guerra, que reduzem o território a manchetes policiais e apagam, de forma sistemática, tudo o que existe de vida, cultura, trabalho e organização popular.

O comentário que circula nas redes sociais e que analisamos aqui é um retrato claro desse apagamento. Ao pedir respeito à cultura do Nordeste Amaralina, o autor lembra algo que parte da imprensa insiste em ignorar. O Carnaval da Bahia, desde os anos 1970, não se construiu apenas nos grandes circuitos turísticos. Ele nasceu e se fortaleceu nos bairros populares, nas favelas, nos blocos comunitários, nas escolas de samba, nos terreiros, nas associações e nos coletivos culturais.

O Nordeste Amaralina tem identidade própria. Tem história. Tem memória. Tem contribuição direta para a cultura de Salvador e do Brasil. Reduzir esse território à violência é julgar o livro pela capa, como bem diz o comentário. A violência nas favelas não é um fenômeno isolado, nem exclusivo daqui. É um problema global, atravessado por desigualdade social, ausência de políticas públicas consistentes e uma lógica de segurança que trata determinados corpos e territórios como descartáveis.

O Carnaval do Nordeste Amaralina não é desordem. É economia criativa. É geração de renda para ambulantes, costureiras, músicos, produtores culturais, técnicos de som, artistas locais. É ocupação dos espaços tradicionais de forma organizada. É pertencimento. É autoestima coletiva. É uma válvula de respiro em meio a um cotidiano marcado por violações históricas de direitos.

Quando se tenta acabar com o Carnaval sob o argumento da violência, o que se faz, na prática, é aprofundar o isolamento da comunidade. É retirar um dos poucos momentos em que o território é visto para além da criminalização. É repetir a mesma lógica que, no passado, tentou sufocar o samba, os blocos afro, a cultura negra e popular. Hoje, muitos dos que antes criminalizavam essas expressões se apropriam delas, ocupam os espaços conquistados com muita luta e fingem que essa história nunca existiu.

O Nordeste Amaralina é terra de mestres, artistas, educadores populares, lideranças comunitárias, projetos sociais, associações, escolas, coletivos políticos e culturais. É terra de gente boa, como lembra o comentário. É um território que se organiza, que debate, que constrói alternativas e que insiste em existir apesar da violência institucional e midiática.

Transformar operações policiais em espetáculo diário, sangrando telas de televisão e portais de notícia, também é uma forma de violência. Uma violência simbólica que legitima a repressão permanente e cria consenso para a retirada de direitos. Enquanto isso, as iniciativas positivas, os projetos socioculturais e as formas ordeiras de manifestação popular seguem invisibilizadas.

Defender o Carnaval do Nordeste Amaralina não é negar os problemas reais do território. É afirmar que eles não se resolvem com mais silenciamento, mais criminalização e menos cultura. É dizer que segurança pública não se constrói destruindo tradições, mas garantindo direitos, investimento social e respeito à vida.

O Nordeste Amaralina não é só violência. O Carnaval é um dos seus maiores símbolos de resistência, identidade e futuro. E enquanto houver tentativa de apagamento, haverá voz, luta e comunidade dizendo que essa história não vai ser encerrada à força.