O Que Fazer Nordeste de Amaralina

Boqueirão: o samba que batizou ruas, formou gerações do Nordeste de Amaralina

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Não é segredo que ruas, avenidas e localidades do Nordeste de Amaralina, durante o seu processo de desenvolvimento, foram batizadas a partir dos sambas criados por moradores e que tiveram papel fundamental na construção da memória cultural da comunidade. Um dos exemplos mais evidentes é o Boqueirão, hoje bastante conhecido e, infelizmente, muitas vezes evidenciado de forma negativa.

Trata-se de um lugar histórico para o movimento do samba na cidade. Seu batismo e significado estão diretamente ligados à sua localização e topografia, assim como ao samba que deu nome à rua no período de sua construção e do fortalecimento do grupo de samba que ali surgiu.

O Boqueirão, cujo significado remete a grande boca, abertura ou passagem natural, é um termo geralmente usado para descrever formações em relevos como montanhas, encostas ou margens de rios. Também é utilizado para definir grandes vãos geográficos e canais profundos, o que dialoga diretamente com a configuração física da área e com a identidade construída ao longo do tempo.

O grupo que fez história no movimento do samba junino em Salvador surgiu no ano de 1972 e é um dos mais antigos da cidade. Infelizmente, não há registros documentais ou formalização institucional, já que por muito tempo o grupo se desenvolveu de forma amadora. Naquele período, não existiam políticas de profissionalização, catalogação ou preservação da memória cultural popular. O próprio contexto da época, em que a comunidade ainda estava em processo de formação e enfrentava a ausência de recursos e suporte, contribuiu para essa lacuna histórica que persiste até os dias atuais. Com o passar dos anos, a comunidade também foi se moldando à ausência desse movimento. Muitos músicos migraram para grandes bandas, ganharam o mundo, e o samba no Nordeste de Amaralina acabou ficando adormecido, perdendo força como uma das principais ferramentas culturais de formação e desenvolvimento. Ainda assim, nunca deixou de existir talento, e muitos músicos da comunidade seguem brilhando até hoje no cenário da música baiana.

Com o passar dos anos, Beto se tornou um ícone e uma lenda viva da cultura local. Até hoje carrega o apelido de Beto Boqueirão, símbolo do samba e da resistência cultural da comunidade. Sua trajetória é reconhecida por todos que acompanharam de perto o movimento e a história construída a partir desse símbolo que é o samba. Em 2022, o Boqueirão realizou seu desfile, um ano após a entrevista feita por nós, do O Que Fazer no Nordeste, marcando a última aparição do grupo no bairro até o momento. Ao resgatar essa memória, queremos provocar uma reflexão e cobrar dos responsáveis pelo carnaval do Nordeste, das associações e dos agentes políticos que fazem parte desse ciclo, um olhar mais humano e sensível. É urgente que essas pessoas sejam homenageadas em vida, que tenham seus sonhos reconhecidos e realizados, e que possam contar com apoio para manter vivo o legado cultural que sustenta a identidade da comunidade.